A cidade verdadeiramente cosmopolita respira ainda o glamour e charme de outrora, convidando a deixar-nos levar pelo pulsar do quotidiano, seja simplesmente à conversa pelos elegantes cafés, seja visitando descontraídamente livrarias e galerias de arte. Pena que em Portugal cada vez mais os cafés sejam substituidos por pastelarias assépticas e descaracterizadas. Os portenhos são em geral bastante simpáticos e têm hábitos muito parecidos com os nossos. Por vezes esqueço até que estou na América do Sul!
Não fosse o colapso económico que em 2001 arrastou a Argentina para uma crise profunda e estagnou o desenvolvimento, acredito que hoje seria uma capital mundial de referência. Buenos Aires é assim uma cidade para ser vivida dia a dia, bairro a bairro.
Extremamente movimentada nas zonas comerciais e empresariais, o centro é penalizado pelo trânsito caótico, por vezes ensurdecedor, tantos são os autocarros e táxis que circulam em filas compactas sem fim. Os velhinhos Taxi Peugeot 504 ainda circulam em condições suspeitas, não haverá com certeza inspecções regulares a veículos automóveis. Na Europa alguns seriam autênticas relíquias, por cá continuam em circulação.
San Telmo, bairro de artistas, que se expressam aos domingos transformando o bairro numa feira ao ar livre. As ruas são fechadas ao trânsito enchendo-se de barracas onde se vende de tudo um pouco, desde artesanato até ferrugentas velharias. Os artistas de rua aproveitam para ganhar uns pesos. Surpreendente é encontrar um grupo de músicos a tocar, usando um piano montado e equilibrado no passeio como se fosse a coisa mais normal...
La Boca, antigo bairro de imigrantes italianos, permanece parado no tempo sem vestígios de modernidade. O colorido das casas não é orientação urbanística mas resultado da época em que os moradores, sem posses, usavam restos de tintas para as pintar. Não faltam referências a Diego Maradona, símbolo vivo do Boca Juniors. Sentado num café dou com um sósia do craque, equipado a rigor e pronto para a fotografia a troco de uns pesos. Vale tudo!
Contento-me com uma foto em "El Caminito" mas não é fácil apoderar-me das escadas, um só minuto, para captar o momento tal é a quantidade de turistas que também querem o seu espaço. Todos sobem e descem as escadas, mas poucos os que entram para compram uma lembrança.
La Recoleta, bairro elegante que mais parece um arrondissement parisiense chique, com belas lojas de moda e arte, é conhecido pelo seu cemitério, onde jaz Evita Péron. Parece mórbido mas é mesmo necessário visitar o cemitério onde vistosos mausoléus e túmulos ostentam o poder económico das familias, que ao jeito argentino celebram mais a data da morte que a do próprio nascimento. Contráriamente aos restantes mortais não tiro a foto da praxe junto ao túmulo de Evita Péron, prefiro manter paz à sua alma.
Congresso, um bairro com grande oferta de hotéis, cinemas e teatro é a zona politica por excelência albergando o imponente Palácio do Congresso. Pena que os sem abrigo da cidade pernoitem aqui no jardim transformando assim o espaço na sua casa-abrigo. Embora não sejam evidentes os sinais de pobreza durante o dia é um facto que pela noite ela existe. Recordo uma noite, alguns sem-abrigo faziam fila na porta traseira de um conhecido fast food para receberem as sobras. Afinal em vez de ir para o lixo pareceu-me bem a distribuição das sobras por quem mais precisa.
Micro-centro partilha com o bairro do Congresso, a Avenida 9 de Julho, considerada a rua mais larga do mundo. Para além da sua dimensão, a sua parte mais larga tem 8 faixas em cada sentido, tem a particularidade de não ter habitação adjacente. Os prédios que vemos estão nas ruas Cerrito e Carlos Pellegrini paralelas à avenida.
Neste bairro tudo se passa entre as Calle Lavalle, Florida e Corrientes. Um autêntico carrefour a despertar o sentido consumista do portenho e do turista. Cómicos, estátuas humanas e bailarinos de tango aproveitam para dar animação às ruas a troco de uns pesos. Aceito o convite de uma bailarina e dar uns passos de tango só mesmo para a foto!
Casa Rosada e Plaza de Mayo são pontos nevrálgicos em BA. Da varanda da casa Evita Péron discursava aos descamisados. Ainda hoje as mães de Mayo manifestam-se na praça exigindo explicações sobre as atrocidades cometidas aos seus filhos durante a guerra. A praça tanto serve de palco para manifestações culturais como politícas. Agradável mesmo é vêr a descontração das pessoas espalhadas pelo jardim, aproveitando para almoçar, descansar, namorar e até bronzear um pouco.
Puerto Madero pretendia ser o principal porto de BA e acabou por se tornar no bairro mais moderno com elegantes edifícios junto ao canal. A zona é bastante agradável para um passeio ao entardecer ou jantar num dos muitos restaurantes elegantes. Imperdível mesmo é o “Siga la Vaca” pela variedade e qualidade de carnes servidas. O pessoal que trabalha no assador não se poupa nas doses que serve. Há que ter fôlego para provar todas as suculentas carnes! Aconselha-se a chegar cedo ou levar dose de paciência caso seja necessário aguardar mesa. Não sei se foi efeito da pesada refeição mas não encontrei semelhanças entre as linhas pontiagudas da Ponte da Mulher e as curvas elegantes que as mulheres portenhas têm.
Símbolo imperdível da cidade é o antigo e requintado Café Tortoni. Cheguei a vêr no passeio, filas de turistas que pacientemente aguardavam só para ter o privilégio de entrar. Como várias vezes passava na Avenida de Mayo foi só escolher o momento ideal e entrar. O merchandising estava bem presente, não faltavam souvenirs para marcar a nossa gloriosa mas breve presença neste momento de história. O momento paga-se mas temos que ajudar a recuperar a economia argentina.
Como em qualquer economia, a crise normalmente só afecta das classes médias para baixo. Haverá sempre quem passe imune e quem aproveite nichos de mercado para se safar, que o digam os "passeadores de cães" que tal qual uma ama, fazem companhia e enchem de mimos os sortudos animais.
Sem comentários:
Enviar um comentário