Mais que um destino, Ushuaia é um marco na rota de qualquer viajante. Volto a olhar para o mapa para cair na realidade da distância que me separa do resto do mundo. O seu título de 'Cidade Mais Austral do Mundo' e os 1000 km que nos separam da Antártida não deixam dúvidas. A localidade chilena de Puerto Williams fica ainda mais a sul mas como a Argentina não lhe fornece energia, esta não ganha estatuto de cidade. A cidade de Ushuaia, pequena e calma, é verdadeiramente única e oferece bastantes condições para os que procuram turismo especializado, neste caso de montanha ou desportos radicais. Tudo se confina praticamente às Avenidas Maipú, San Martin e Gob.Deloqui. Entra-se facilmente em qualquer estabelecimento comercial, sair é mais complicado, tento perceber porque é que estão exageradamente quentes no interior e a única resposta que obtenho é... porque está frio no exterior.
A tranquilidade que a Bahia de Ushuaia nos transmite esconde a dureza das águas gélidas que enfrentamos quando percorremos o Canal Beagle numa incursão marítima até ao Farol 'Les Eclaireurs'. O frio e o vento que assolam o convés do moderno catamarã não permitem ficar muito tempo a desfrutar a paisagem, mesmo assim vale a pena aguentar e observar as comunidades de pinguins magélanicos e elefantes-marinhos que habitam as redondezas indiferentes à nossa presença e ao frio. E se Charles Darwin aguentou na sua viagem a bordo do "HMS Beagle" em Dezembro de 1832, nós também o aguentamos.
A subida pelo Glaciar Martial a rondar os 1.000 metros de altitude é uma boa experiência. Pena que as aerosillas estivessem em manutenção obrigando a um início de escalada logo desde a base. À medida que se avança trilho acima, o frio desaparece, ouve-se somente o pisar das botas na neve e o respirar ofegante, a subida vai-se tornando cada vez mais íngreme, é preciso pedir licença a um pé para mexer o outro.
Como o objectivo não era de todo atingir o cume, prefiro parar algures na encosta, disfrutar uma paisagem arrebatadora, com a cidade em miniatura ao fundo e "ouvir" o silêncio que toda aquela massa de gelo nos transmite. Ao longe vêem-se outros alpinistas ou, como eu, uns curiosos mais destemidos. Sinto-me um privilegiado não pela banalidade do feito alcançado mas pelo facto de poder absorver todo aquele cenário que no momento me pertence.
Visitar a Baia Lapataia, para além de funcionar como local inquestionável para qualquer foto da praxe ou como a linha de meta para muitas expedições ao longo da Ruta Nac. nº3, é uma oportunidade de pura comunhão com a natureza. Pena é que esta sensação de isolamento só se consiga entre duas excursões.
É impressionante a quantidade de autocarros que despejam turistas em sistema contra-relógio. Os turistas perdem o tempo à espera da sua oportunidade para se fotografarem junto à placa. A natureza fica todo o tempo à espera de ser apreciada...
É impressionante a quantidade de autocarros que despejam turistas em sistema contra-relógio. Os turistas perdem o tempo à espera da sua oportunidade para se fotografarem junto à placa. A natureza fica todo o tempo à espera de ser apreciada...
Recomenda-se seriamente alugar um taxi e ir gerindo o tempo nos pontos de interesse.
Neste pedaço de terra, outrora esquecido, foi iniciada em 1902 a construção do Presídio Nacional para aqui estabelecer uma colónia penal. Os presos de delito comum e presos politicos foram utilizados para trabalhar na construção de ruas, edifícios e na exploração da floresta. Foi assim que nasceu a linha do trem mais austral do mundo, transportando os presos bem até ao interior do Parque Nacional Tierra del Fuego onde eram obrigados a cortar lenha e caçar para abastecimento da prisão caso contrário morreriam ao frio e à fome. Os fugitivos teriam má sorte, as condições de sobrevivência eram nulas, acabariam gelados algures... Uma visita ao Presídio Nacional e de seguida a viagem no Tren del Fin del Mundo permitem recriar no imaginário, a má sorte e as dificuldades de quem um dia ousou, por exemplo, dizer mal de um qualquer governante!
O percurso tem início na Estação del Fin del Mundo onde a azáfama é grande. Os turistas compram bilhete, fotografam-se e acomodam-se nas exíguas carruagens até a máquina soltar o apito de partida. Partimos então em direcção ao Parque Nacional Tierra del Fuego, no aconchego de uma carruagem aquecida e embalados pelos comentários bilingue do guia. Não faria mais sentido a viagem ser feita sem estas mordomias, num cenário mais próximo da realidade? Não como prisioneiro mas como simples passageiro?
Reza a história que o nome Patagónia vem da palavra patágon, usada por Fernão de Magalhães em 1520 para descrever os indígenas da região pelo facto de parecerem ser uma raça de gigantes.

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