Seguimos agora para sul em direcção a Erfoud. Após passar Ifrane, já em pleno Médio Atlas, a temperatura começa aquecer e a paisagem a mudar. Chegamos a Midelt a tempo de almoçar quando aparece Rachid oferecendo-se como guia e propondo levar-nos à pista do Cirque de Jaffar. Aceitamos, partindo logo depois de largar as malas das motos no Hotel Safari Atlas. Ao início, confesso que não queria arriscar uma queda estando tão longe de qualquer assistência médica fiavel, nem meter a máquina nestes trilhos de cascalho tão longe de qualquer assistência técnica credivel. Contudo, a paisagem ia recompensando o risco assumido e a chegada ao topo foi como a cereja no cimo do bolo. Embora começasse a entardecer, o calor ainda intenso, combinado com um silêncio reconfortante, faziam deste local inóspito um cenário verdadeiramente fantástico.
À medida que rumamos a sul, o cenário vai mudando, a vegetação começa a rarear e o horizonte tona-se mais árido e vasto. A montante da barragem Hassan Addakhil, o Oued Ziz forma um imenso lago azul turquesa cujo tempo apertado não permite o necessário desvio para uma visita.
Depois de Er-Rachidia, a estrada vai seguindo na companhia do imenso vale do Ziz. O calor começa a ser sufocante, o pó paira nas bermas e sente-se já uma leve sensação do deserto mas ainda faltam alguns bons quilometros que agradavelmente se percorrem.
Um óasis está para o deserto como o Kasbah Xaluca para Erfoud. Foi a recepção perfeita! À entrada do hotel, tipicamente decorado em árabe, um grupo musical acolhe-nos com cantares de música popular. Os corredores exteriores de acesso aos quartos assemelham-se a ruelas de cidade, um quarto enorme e deliciosamente acolhedor e por fim uma casa de banho luxuosa faziam uma injusta afronta às demais que até agora tínhamos usado. Após um banho para tirar poeiras da viagem seguiram-se uns mergulhos na piscina para relaxar. O ambiente estava perfeito mas desfazia por completo toda a carga sentimental até agora acumulada. Ao passar a porta do hotel ficou para trás toda a modesta e precária vida marroquina para dar lugar a uma luxúria das arábias, onde iríamos passar os próximos dias e participar no Encontro do Horizons Unlimited. A noite ia longa quando assistimos a uma sessão fotográfica pré-nupcial. Um casal de noivos chega na companhia de familiares e amigos, brindam, deixam-se fotografar e saem poucos minutos depois num silêncio exemplar. Tudo isto só para a fotografia! Para nosso espanto vemos no meio da pequena multidão um fulano com a camisa do FCP, marcada Tarik Sektioui nas costas, mas segundo confessou o seu verdadeiro ídolo era mesmo o Cristiano Ronaldo.
Erfoud é uma pequena cidade com fortes raizes e sem vestígios de modernidade. Como tem alguma capacidade hoteleira instalada é ponto de passagem e pernoita de expedições. Precisamente por essa simplicidade, agrada-me ficar na esplanada de um café local, a relaxar e a apreciar o movimento ao entardecer. Os passeios parecem ser só para enfeitar, as pessoas dividem a rua com as carroças, as bicicletas e as viaturas entre si, mas a lição que retiramos é que ninguém se incomoda com isso e todos sabem entender-se em perfeita harmonia.
Madrugamos saindo do hotel ainda noite para chegar ao Erg Chebbi a tempo de assistir, das dunas, ao nascel do Sol. Não é fácil alcançar o topo das dunas sobretudo em contra-relógio com o Sol ameaçar nascer sem a nossa presença. Registo em silêncio o momento que as fotos jamais irão conseguir retratar e a dimensão do espaço que nos reduzem a simples grãos de areia. Regressamos a Erfoud transpondo a Porta de Rissani. O dia está bem quente quando largamos o conforto do hotel e retomamos a viagem já acusando o desgaste de uma noite curta e um sol escaldante.
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