Havia algum tempo que a publicidade às dunas do Maranhão despertavam interesse não só pelo facto de formarem uma estranha extensa área deserta, mas por esta se inserir na costa nordestina, reconhecidamente repleta de praias e coqueiros. Mas o Brasil é enorme, tudo pode acontecer... Levando pouco mais que São Luís, Alcântara e Lençóis no "road book", chega finalmente a vez de aterrar neste estado, o mesmo que viu nascer Alcione.
Os ludovicenses, foram partindo para a periferia onde edificaram a cidade nova, deixando o centro de São Luís a envelhecer triste e abandonado. A custo a parte antiga foi eleita Património Cultural da Humanidade em 1997 mas arrisca-se a perder o estatuto se o poder local não acelerar a recuperação do património. O casario degradado, divide as estreitas ruas do centro histórico com algumas habitações recuperadas, à espera que uma alma caridosa ou um subsídio estatal o possa recuperar. Com um acervo arquitectónico de mais de 3.000 casas coloniais à mercê de complexos jogos de interesse, incúria dos proprietários ou falta de vontade política, imagina-se tarefa pouco fácil.
Como o centro histórico alberga uma camada desfavorecida da população, acabam por se sentir efeitos na segurança do local, sobretudo a partir do entardecer com o comércio a fechar e as ruas e ficarem desertas. Excepção feita à zona do Pólo Reviver, onde uns restaurantes e barzinhos se enchem de gente a partir do final da tarde, sob um controlo policial permanente. Ao início estranha-se mas umas cervejas depois já nem se vê onde pára a polícia.
O Antigamente, retratado na foto acime é restaurante mas sobretudo botequim, ideal para uma boa conversa num final de tarde quente, acompanhada por uma cerveja gelada ou mesmo pela bebida divinal só existente no Estado do Maranhão - o Guaraná Jesus.
É muito agradável e refrescante, com sabor a canela e uma côr algo química, não fora ter sido inventada por um farmacêutico em 1920. A Coca-Cola é detentora dos direitos mas não a pode, por enquanto, comercializar noutros estados ou países.
Embora tenha sido fundada pelos Franceses em 1612, baptizada de Saint Louis em homenagem ao Rei Luís XIII, ocupada depois pelos Holandeses, foram os Portugueses que acabaram por colonizar o espaço, desenvolvendo ao longo dos anos a produção do algodão e da cana-de-açúcar. Há marcas da presença portuguesa, evidentes na traça das casas estilo colonial, em especial nas ruas do centro histórico. Uma visita ao Museu Histórico e Artístico do Maranhão instalado num belíssimo solar, transporta-nos para o passado. Respira-se o passado histórico, o estilo de vida dos senhores da terra, das suas grandes famílias e da sociedade elegante onde se movimentavam em contraste cruel com a escravatura que ainda existia confinada às sanzalas. Ainda que ensombrada pela escravatura o guia rasgava elogios à influência dos franceses e portugueses. Antes assim...!
O brasileiro não tinha, ou tem, o hábito de guardar antiguidades. Tudo que é velho dão para quem ainda precisa ou vai para o lixo. Não guardam. A igreja foi ao longo dos anos coleccionando o espólio das famílias abastadas tendo acabado por doar recentemente todo este acervo histórico ao museu. A história passa assim a ter uma narração ilustrada permitindo ao visitante português, conseguir reconhecer algumas das peças que fazem ainda hoje parte de heranças deixadas pelos nossos bisavós.
Basta sair do museu e das memórias de um passado familiar para regressar de imediato ao presente. Centenas de pessoas percorrem a extensa Rua Grande no frenesim das compras. Os promotores das lojas, agarrados aos microfones, esforçam-se por agarrar a clientela anunciando as melhores promoções aos melhores preços. Estamos em Dezembro e é racionalmente impossível, com tanto calor, sentir o espírito da época natalícia. Sofrem os vendedores trajados de Pai Natal, sofrem as empregadas de mesa a servir à mesa de gorro vermelho na cabeça. E sofro eu ao pensar que dias mais tarde já deverei estar de volta a Portugal, de volta ao frio.
Há vários acessos aos Lençóis Maranhenses sendo Barreirinhas, cerca de 280Km e 4 horas de ônibus, a entrada mais utilizada mas não necessariamente a melhor. Ao longo do caminho pequenas povoações e casas ainda de construção rudimentar mostram a diferença de qualidade de vida das populações rurais. De Barreirinhas prossegue-se em carrinhas Toyota de caixa aberta, chamadas "jardineiras". São fortes e feias mas estão preparadas para a dureza dos trilhos. Nós é que não! Mas lá seguimos todos de cara alegre.
Embora Dezembro não seja o mês ideal para visitar os Lençóis Maranhenses, ainda restava alguma água nas lagoas a embelezar as extensas massas árida de areia. O apogeu é atingido entre Maio e Agosto, durante a época das chuvas, quando as lagoas enchem de tal forma que transbordando se ligam uma às outras.
Definitivamente não consigo entender os lençóis como uma espécie de deserto. Aqui deparamos com a beleza natural das extensas dunas alagadas, no deserto confrontamo-nos com a tranquilidade da solidão.
Enquadrado num nordeste ainda pouco conhecido, sem grande promoção turística, os lençóis gozam da tranquilidade que precisam para se manterem. Desérticos das hordas de turistas!
