Amazónia, Brasil



Passados 503 anos após Pedro Alvares Cabral pisar as terras de Vera Cruz, chega a oportunidade de viajar até ao Brasil e conhecer o país dos nossos irmãos, do samba e das novelas. Seria pretencioso falar do Brasil como um todo, a dimensão é de tal forma grande que cada estado assume identidade, usos, costumes e tradição própria.

Data: Julho 2003
Destino: Amazónia
Objectivo: Conhecer floresta na região amazónica, origem de madeiras tropicais brasileiras

A BR-230 e a BR-422 (construida para dar apoio às obras da Hidrelétrica de Tucuruí) foram implantadas nas décadas de 70 e 80, respectivamente, para atender a necessidade de ocupar a Amazônia e permitir a colonização, interligando pontos navegáveis, formando um sistema de transporte rodo-fluvial integrado. Entretanto, a Transamazônica é uma estrada em permanente estado de emergência, necessitando de manutenção constante durante o ano inteiro. Na época das chuvas, no período de inverno, a formação de atoleiros, rompimento de bueiros e de aterros interrompem o tráfego e destroem pontes. Durante o verão, a poeira excessiva aumenta significativamente o perigo.
Fonte: DNIT




A incursão ao interior do estado teve como objectivo a visita a uma serração em Maracajá e à área de abate já no interior da Floresta Amazónica. A 21 de Julho de 2003 voamos desde Belém do Pará para Tucurui, 500km a sudoeste de Belém, de onde seguimos em pick-up 4x4 já na companhia do responsável da serração, em direcção a Maracajá, a cerca de 115 km de distância. Percurso feito pela BR-422 que se liga com a BR-230, esta em terra batida, mais conhecida pela Transamazónica, cruzando no trajecto a localidade de Novo Repartimento.

Visitou-se a serraria, de características artesanais, onde a tecnologia parece ainda não ter chegado. Embora laborando nestas condições, conseguem serrar 100 a 120m3 de toros diariamente, equivalente a 30m3 serrados ou seja, a quantidade suficiente para carregar um camião com destino a Belém. Um camião demora quase um dia a carregar uma vez que as pranchas são carregadas e acondicionadas manualmente. Funcionam por turnos quase ininterruptamente, ambicionando laborar 24 sobre 24 horas o que significaria maior produção, maior rendimento e portanto melhoria da parcas condições de vida.

É chocante vêr a quantidade de madeira sub-aproveitada por falta de equipamento moderno, sendo desperdicados muitos m3 que na Europa teriam certamente a rentabilização adequada para outros fins, porventura mais nobres, que as madeiras merecem.

Após um jantar caseiro com carne de sol, repousamos numa pousada de estrada onde haviam camionistas que dormiam ao relento, junto aos seus camiões, naquele ambiente de floresta, embalados pelas sonoridades das aves e outros animais que por azar não dormem. Dia seguinte, ainda de noite, seguimos para o interior de Floresta Amazônica, tendo-se percorrido no total cerca de 240 km em estrada de mato e terra batida.


Estas estradas, abertas para o escoamento das madeiras, não oferecem condições para o transporte dos toros de forma minimamente segura,devido às más condições do terreno uma vez que não existe praticamente manutenção. Para além de estreitas, com perigosas picadas de acentuado desnível, há determinadas zonas cujos troços são dignos de rallye todo-terreno. Os camiões rolam a baixa velocidade devido ao estado acidentado do piso que tende a piorar na época das chuvas. As ultrapassagens fazem-se com muita paciência e audácia sobretudo devido à poeira ou lama levantada pelos rodados...uma odisseia.


Chegados a uma zona de exploração encontramos várias “esplanadas” (locais onde os toros já cortados são armazenados para serem depois transportados para as serrarias) com madeiras variadas, onde predominava o jatobá e a tatajuba. É aqui que começam as histórias que tanta tinta faz correr!


À passagem pela localidade de Pista (no passado existia uma pista de aviação para os garimpeiros) onde encontramos um fornecedor de madeiras que nos dava conta das dificuldades em manter máquinas operacionais e de conseguir quer camiões quer camionistas, ambos de confiança para “puxar” todos os toros para as serrarias dos seus clientes. De facto, o mau estado das estradas deverá provocar sistematicamente danos pesados nos camiões que ficando parados para reparação representam menos capacidade de transporte disponível.

Em conclusão a ideia fundamental retida, resume-se a quatro questões (a) mau estado das estradas (b) mau estado geral dos camiões (c) dificuldade na contratação de camiões derivado dos pontos anteriores (d) o facto da madeira estar cada vez mais distante.

Curioso o esquema de financiamento adiantado aos fornecedores, sendo este posteriormente deduzido pelos compradores à medida que os toros começam a ser entregues.


Fica a ideia que o desmatamento da Floresta Amazónica terá elevados custos em termos ambientais, tendo como principais responsáveis a produção agro-pecuária, a indústria madeireira, a produção do carvão e agora da soja. Se não forem fixadas outras fontes de trabalho de que viverão as populações da região amazónica? Nada adianta ouvir tanta tése sobre o desmatamento sem vir cá para vêr e compreender o funcionamento deste ecossistema!

E assim regressamos a Belém do Pará.

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