Manaus, Brasil

Em resultado de atrasos e ligações perdidas, mais um vôo cancelado e uma aeronave avariada, chego a Manaus já madrugada dentro. Perco a beleza aérea das linhas curvilíneas traçadas pelo Amazonas mas não irei perder a perspectiva fluvial deste rio que é somente o maior do mundo. São 6000 Km de rio desde a origem nos picos gelados dos Andes peruanos até ao Atlantico.



Manaus é uma cidade que incita a reflexões sobre o esplendor da época da borracha, sobre a elegância da sociedade que aqui vivia já com padrões idênticos às grandes capitais europeias, mas também sobre o desenvolvimento que transformou esta cidade interior do Estado do Amazonas no actual pólo industrial e tecnológico de referência. Basta visitar o Teatro Amazonas, uma montra de arte e estilo, para se dar o justo valor aos homens, que em busca da riqueza natural, deixaram riqueza intelectual e patrimonial que perdura até aos dias de hoje.



De resto Manaus parece um enorme centro comercial a céu aberto. O comércio de rua coabita lado a lado com os estabelecimentos que pagam impostos para ter a porta aberta. No terminal fluvial é enorme o movimento de pessoas carregadas de compras, que aguardam pelo barco que os levará de regresso às suas casas. São evidentes os rostos indigenas que se movimentam pela cidade, mas que habitam algures nesta região amazónica.



Toda a gente conhece alguém que organiza incursões na floresta tropical e que normalmente é sempre melhor que os restantes, como se não soubéssemos que estas preferências existem em troca da comissão que vão receber! Normalmente desconfiamos destas propostas fáceis e desta vez com razão. Mesmo assim contando com o transfer em ônibus, a viagem de barco e o alojamento até nem estaria mal não fosse a péssima alimentação, muito aquém do que a região tem para oferecer. Como o espírito da viagem também não procura a comodidade mas o conhecimento e a descoberta acomodo-me às circunstâncias.



Estamos a caminho do encontro das águas onde a confluência do rio Negro com o Solimões (ou Amazonas) dão origem ao grande Amazonas, um verdadeiro espectáculo da natureza. As águas escuras do Rio Negro correm cerca de 2 km por hora a uma temperatura de 22°C, enquanto as águas barrentas o Rio Solimões juntam-se a 6 km por hora com uma temperatura de 28°C. As diferenças de temperaturas, densidades e velocidades impedem estas massas de se misturarem, seguindo assim separadas por mais de 18 km até se fundirem num único leito e percorrerem uns milhares de quilómetros até desaguar no Atlântico perto de Belém do Pará. Autêntico espectáculo da natureza, onde a dimensão e beleza das águas tornam o momento inesquecível.



Seguimos subindo o rio numa embarcação típica, deixo-me embalar numa das redes disponíveis enquanto vejo ao longe as margens pachorrentamente a passar. A incursão na floresta tropical foi uma das experiências mais gratificantes que já vivi. A consciência diz-me que este ecossistema, equilibrado e autónomo não pode ser vítima de erros humanos. Embora seja suspeito para falar uma vez que parte da minha actividade profissional passa pelo transporte de madeiras exóticas, cada vez mais custa aceitar o jogo de interesses e falta de fiscalização que possibilitam o abate ilegal para venda de madeira mas sobretudo a incapacidade de controlar o abate com vista ao cultivo de soja e à criação de gado.



Chegados às instalações que serviriam de ponto base nestes dois dias, largamos mochila e seguimos de barco até uma lagoa ali perto para uma pesca às piranhas, só que estas, bem mais espertas, não caíram no meu isco. Mesmo assim foi agradável observar de perto estes temíveis peixinhos.



Conduzidos pelo guia, desta vez em canoa, prosseguimos ao entardecer por entre igarapés, agora para visitar os jacarés. Enquanto o guia rema silenciosamente, sentimo-nos envoltos num cenário tétrico: a escuridão quase total aliada aos ruídos indescritíveis daquela passarada encaixar-se-iam na perfeição de qualquer filme de terror. Os jacarés, coitados, encandeados pela luz das lanternas deixam-se facilmente apanhar e permitem-nos assim pegar nestes simpáticos répteis!!



De regresso ao ponto base, imagino uma refeição suculenta para terminar o dia. Talvez um tucunaré assado ou um tambaqui grelhado... Mas ficou mesmo só na imaginação. Para jantar reservaram-nos piranhas fritas, fruta e água, tudo à luz da vela que a electricidade era igualmente artigo do imaginário.

Dia seguinte pela manhã, em grupo, iniciamos uma caminhada pela floresta na companhia do nosso guia, que entendi ser também instrutor no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) e por isso acabamos por nos sentir mais seguros. Afinal andamos simplesmente a vaguear durante horas, sem caminho ou trilha visível à vista, pelo meio da vegetação, contando com a boa orientação do guia.



Com esta experiência pudemos contactar com as aranhas, sentir os efeitos anestésicos da caferana, conhecer o cipó d'água e sumaumeira e acabar atacado e picado por formigas que, sentindo-se incomodadas com a minha presença, introduziram-se botas dentro e pernas acima.



O calor aliado à humidade arrasam qualquer um. Anseio pela chegada para um banho refrescante num rio, mas depois de mergulhar interrogo-me se as piranhas que em vão tentei pescar no dia anterior não andariam por ali também chateadas comigo. Pelos vistos não!

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